Jun 9 2008, 21h11
Tinha-se convencido de que queria morrer ao lado dela, e este sentimento era manifestamente excessivo: se era só a segunda vez que a via! Não seria antes a reacção histérica de um homem que, ao aperceber-se, no seu foro íntimo, da sua incapacidade para amar, começava a representar para si próprio a comédia do amor?
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Tudo se vive imediatamente pela primeira vez sem preparação. Como se um actor entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que vale a vida se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida?
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Para um amor se tornar inesquecível é preciso que, desde o primeiro momento, os acasos se reúnam nele como os pássaros nos ombros de São Francisco de Assis.
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Porque a vida humana (...) é composta como uma partitura musical. O ser humano, guiado pelo sentido da beleza, transpõe o acontecimento fortuito (...) e faz dele um tema que, em seguida, inscreverá na partitura da sua vida.
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Tinha uma vontade brutal de fazer qualquer coisa que a impedisse de voltar atrás. Tinha vontade de anular brutalmente os últimos sete anos da sua vida. Eram as vertigens. Um inebriante, um incontrolável desejo de cair.
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Enquanto as pessoas são novas e as partituras musicais das suas vidas ainda só vão nos primeiros compassos, podem compô-las em conjunto e até trocarem temas (...). Porém, quando se conhecem numa idade mais madura, as suas partituras musicais já estão mais ou menos acabadas e cada palavra, cada objecto, tem um significado diferente na partitura de cada uma.
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Franz tinha mais ou menos doze anos quando a mãe ficara sozinha com ele, porque um dia, inesperadamente, o pai tinha-se ido embora. (...) Foi nesse dia que, ao saírem de casa para dar uma volta pela cidade, Franz percebeu que a mãe tinha dois sapatos desemparceirados. (...) Passou duas horas com ela na rua sem conseguir despregar os olhos dos seus pés. Foi então que começou a fazer uma ideia do que devia ser o sofrimento.
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Os extremos marcam a fronteira para lá da qual não há vida, e, tanto em arte como em política, a paixão do extremismo é um desejo de morte disfarçado.
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Numa sociedade rica (...) há (...) cada vez mais estudantes. Estes, para obterem os seus canudos, primeiro têm que fazer uma tese sobre um dado tema. E não é difícil arranjar um tema, porque basta glosar o que já foi dito. (...) A cultura está a desaparecer numa infinidade de produtos, numa avalanche de letras, na demência da quantidade.
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Sentado na cama, olhava para a mulher deitada a seu lado, que lhe apertava a mão a dormir. Sentiu por ela um amor inexprimível. Nesse momento, ela (...) abriu as pálpebras e olhou para ele com um ar assustado.
«Para onde é que estás a olhar?», perguntou ela. (...)
«Estou a olhar para as estrelas, disse ele.
--Não me mintas, tu não estás a olhar para as estrelas, tu estás a olhar para baixo.
--Mas, como vamos num avião, as estrelas estão por baixo de nós.
--Ah!», disse Tereza. Apertou ainda com mais força a mão de Tomas e voltou a adormecer. Tomas sabia que, agora, Tereza estava a olhar pela janela de um avião que voava tão alto que ia por cima das estrelas."