O arco-íris vibra intensamente
Sobre a água que nutre a grama.
A sonâmbula que quer comprar macarrão
O sonâmbulo que quer jogar futebol
O garotinho que se perde do rapaz.
A foto que gera tanta vida
Quanto a janela que emoldura a chuva.
O jovem que quer conversar
A jovem que não quer ouvir
O rapaz que se perde de si próprio.
A música que acalma o espírito
E tranquiliza a triste solidão alegre.
O moço que quer mudar
A moça que não sei o que quer
O inverno brada vigoroso
Sobre a legião de blusas aconchegantes.
Supernova
Para lá o Sol iria, se não fosse perturbar
Detrás do décimo terceiro planeta, e além
Reza o infinito, mora o impossível
Astros marchando, estão cabisbaixos
Mas mantêm a imponência dos dias viris
E cai a noite, e sobe o escuro, mais e mais
Inatingível, me contenho em supernova
No gélido interior das Estrelas tristes
Em permanente combustão lacrimal
Reside aquela que adora a sala de espera
Doce e domada utopia dos corações selvagens
Galáxias inteiras se renderiam aos seus choramingos
Mas o vácuo faz barulho, atrapalhando o sussuro
Supernova, supernova, você pode me ouvir?
Mais forte e mais baixo, urra o Buraco Negro
Tristeza não põe a mesa, desconfigura a cabeça
A clareza só fica acesa se encontra a beleza
Ventos invisíveis e ríspidos não dão perdão
As pobres Estrelas, elas nunca aprendem
Relaxadamente inseguras nos seus casulos de vidro
Mas inconscientes do ser e do não ser extremo
Calma e silenciosa, me envolvo na supernova
E chegam à atmosfera, em bolas de fogo se dissipam
As Estrelas, vem e vão, Astros petulantes
A fusão, a fissão, poeira cósmica andarilha
No nada absoluto, melancolia e megalomania
Felicidade em garrafas marítimas, prazer e compaixão
É tudo uma coisa só, e sempre, e talvez, entretanto
E quando não é? Mergulha fundo o elemento fundamental
Mas o pacífico universo à guerra torna, e vice-versa
Filho pródigo, sigo contido em supernova
Definição Confessa
Tristeza é sentir o perfume da morte
O aroma presumivelmente doce do ocaso final
A fragrância indelicada dos sonhos esquisitos
O cheiro forte daquele suicídio desproposital
Aquele odor entorpecente da rotina mal-quista
Arrasadora maré olfativa aos narizes dendríticos
Magnânima na terra dos insossos e sem-graça
Tristeza é buscar cambaleante pela luminária
Como um cego solitário tateando a luz
Aquela sempre distante luz no fim do túnel
Ainda que longe, é notável e bela
Mas permanece inalcançável, obtusa, vaga
Tremulante no gris fortificado de minhas sinapses
Soberana no reino da escuridão confusa
Tristeza é, ainda, a reação à alegria
Embate eterno entre emoções opostas
Fenômeno intrínseco à dualidade humana
Simplista em demasia sob a luz da razão
Deveras complicado em termos de sensibilidade
Lenta marcha a ré de todo um metabolismo
Imponente sobre os desavisados e não adaptáveis
Pesadelos incólumes atormentam o desalmado
E a tristeza parasita suas vísceras descontentes
Nunca mais aquela existência outrora vivida, vívida
Quando as surpresas do futuro só engatilham o medo
Apenas parecemos dirigir felizes ao olhar o retrovisor
Valha-nos, bilhões de soldados, neurônios e litros de sangue
Destronemos a influência corrupta deste sentimento vil
Todavia, fui mais alegre do que sou triste.
Cotovia, serei também mais alegre do que triste.
Lamentos em Branco
Nunca houve tempo tão duvidoso e desconfiado
Mas persistem os sorrisos tortos e espontâneos
Onde minhas palavras e pensamentos se voltam contra mim
E a luz que guia o bem se avermelha no horizonte
Distante horizonte onde os anjos brindam em paz
A paz que os tolos anseiam e os sábios cultivam
O poente colore o firmamento de laranja progressivo
E felizmente tão belo céu não desabou sobre nossas cabeças
Ainda assim me descuido e bato a cabeça em tal teto matizado
Alto demais para passar despercebido
Baixo demais para se fazer perceber
Tão logo minha íris espelhe este momento único
Farei o possível e o improvável para reter a divindade em mim
Às vezes tudo parece uma chuva passageira outonal
Outras, uma terrível geleira eterna siberiana
Alguns adoram os lamentos das tardes vazias, vadias e solitárias
Um punhado se rende ao conforto das reclamações convenientes
Outros perseguem a evolução tendo a disciplina como braço direito
E o bom-senso como sensei soberano
Desta nossa vida ambígua, ora simplista ora complexa
Muitas coisas apenas rebatem nas oscilações ressonantes da minha mente
Limites e fronteiras perturbam as águas da minha calma lacustre
Mas a pergunta escandalosa é: que infelicidade gera tal imposição?
Uma construção a partir de erros sucessivos e nozes em falta
Fundações preguiçosas, estrutura vacilante, aparência vergonhosa
E o mar à vista pisca-pisca vermelho sangue miragem desértica
Deixe a harmonia e a simpatia na linha de espera
Apreciando a charmosa sinfonia das dúvidas e arrependimentos
Mas atenda-as logo, desprovido da educação lustrosa do telemarketing
E faça florescer palavras mais belas nas páginas em branco
Revelação?
Do mundo das trevas ressurgi, ofegante
Plácido feito uma manhã enevoada de sábado
Cada singela pedrinha do mundo fazia todo sentido
As horas me transpassavam em câmera lenta
Sentia milhares de megatons pressionando minhas vísceras
Minha imagem mais nítida a cada tijolo quântico detonado
Bati minhas asas e irrompi daquela velha pele gasta
Destruída a muralha, construída minha ponte ectoplasmática
Sonhos em trânsito constante, pesadelos que se consomem
Turista nenhum se enfureceu com minha teimosia terrestre
Toda uma era deixava o coma e contemplava o brilho
O guia salvador, faísca educada e hospitaleira
Promessas do fim das barreiras ditatoriais remissivas
Antes sempre ocultas nas várias trincheiras mentais
Levanto e luto contra tudo que me é externo e estranho
Combatendo os homens que correm sobre as águas
Que pensam mas nunca mergulham em suas próprias idéias
Preferem abrigar suas frustrações e perdem o fôlego
Descrentes do oxigênio, fogem pelas saídas de incêndio moral
E assim nunca vislumbram o caminho das almas até o céu
Este novo mundo é claro e preciso, objetivo e apaixonado
Repleto de brilhos que ultrajam as demais cintilações
E aqui se vive de maneira inadiável e irrecusável
A consciência de que este segundo já se desperdiçou é soberana
Ninguém anda de ré, ninguém enxerga de trás pra frente
O êxtase dessa manhã perfeita que se anuncia é perpétuo
E cada um tem seu próprio raio de luz conselheiro
De cada um brota a singular fonte de seu íntimo
Todos traçam seus caminhos baseados nas mensagens de tal fonte
Todos segregam as mentiras e celebram as verdades inatas
Não há motivos para guerras e desacatos
O irrepreensível é não apreciar a linda paisagem
Resolvi abolir toda a dicotomia dos meus conceitos
E abraçar o novo e o velho como a um só
