A vitrola assobiava um samba chiado, quase que sumindo, a voz, apagada pelo tempo e o descuido com o disco, expressava a solidão. Era Nelson Cavaquinho, num velho vinil, já torto e soluçado. Eu o ouvia e recordava as falas de um amigo, “você precisa conhecer o Nelson Cavaquinho ele é o nosso primeiro sambista dark”.
Fiquei impressionado com essa descrição, principalmente para um sambista. Uma definição simples, sem muito ter-com-não-ter, mas com uma palavra que sintetizava em si um turbilhão de informações, e que se definiu como a própria descrição. “Dark”. É, “dark”. Baudelaire era dark, assim como Guinsburg, Bukowski e uma geração inteira de beatnicks que influenciaram Bob Dylan e o sonho da contracultura. Dark tem em si o desprezo, a violência e a rebeldia.
Nos anos 80, a chamada década perdida, o dark virou moda. Havia um glamour em aparecer com roupas de couro num videoclipe MAD MAX, dançando e cantando pop e heavy metal (os dois lados de uma mesma nota de um dólar). Sim, o pesado foi suavizado. Mas enquanto a MTV explodia em videoclipes, os subúrbios, becos e esquinas das metrópoles explodiam em travestis, mendigos, traficantes e tudo que a sociedade dos 80 gerou de mais dark, incluindo a AIDS.
E foi em 86, quando no Brasil o pop-rock-dark estourava e a inflação estourava e a seleção estourava; o samba também estourou, só que para dentro, como uma implosão; ficou um pouco mais escuro, e triste. Ia-se Nelson Cavaquinho, poeta da Mangueira. Todos choraram. Afinal, dizia-se: “na Mangueira quando morre um poeta todos choram”. E o Rio de Janeiro se viu dark, assim como era quando então capital da República, lá pelos idos de 1930 e 40; e Nelson um policial que fazia a ronda lá no morro da Mangueira definitivamente caiu no samba. Na verdade foi por excelência um caído, um bêbado, um boêmio, o rei vadio. Mas, sejamos justos, era a própria capital federal sua princesa puta. Sim, e não só a capital, dark era o Brasil com suas maravilhas tropicais, ostentando no peito “Ordem e Progresso”, sem nunca ter nem um e nem o outro.
Recordo-me da apresentação de Walter Franco na faculdade. Foi no primeiro ano, na segunda semana do curso de jornalismo. Ele lá na frente com um violão e um microfone, eu lá no fundo tentando cantar e relembrar suas músicas e o público entre nós dando risada daqueles versos estranhos que lhe renderam o título de maldito nos anos 60 e 70. Ao meu lado um cidadão vinte anos mais velho me acompanhava nas tentativas de cantar e relembrar aquelas canções. Show terminado, apresentação curta. Fomos ao bar, eu e o pessoal do jornalismo, queríamos todos nos conhecer melhor. Lá estava aquele cara, fui saber ali que fizera Ciências Sociais na PUC, nos anos 80, mas sempre tivera vontade de cursar jornalismo, surgiu a oportunidade e lá estava ele. Começamos a conversar sobre música, já que éramos quase os únicos que conheciam algo de Walter Franco ali. Se chamava Fernando e, assim como eu, gostava de Sérgio Sampaio, Jards Macalé e Itamar Assumpção. Foi quando me perguntou, você conhece Nelson Cavaquinho, ele é o nosso primeiro sambista dark.
Era óbvio que não sabia quem era Nelson Cavaquinho, na verdade eu achava que conhecia tudo o que era diferente, estava enganado. O tempo se encarregou de desfazer esse vácuo em meu espírito, as músicas de Nelson aos poucos foram ocupando espaço em meu repertório cultural musical. E voltei a acreditar que tinha o domínio do que era diferente em música. Ledo engano. Um outro amigo – sempre os amigos, e pior, esse acabava de se formar em engenharia física – me mostrou um CD de um violinista clássico francês que tocava música brasileira. Nossa ! , comentei, que legal esse cara em mano! É, eu vi um show dele lá em São Carlos, disse Yuri, meu amigo engenheiro, mas lá ele num tocou chorinho não, ele mandou uma jazzera. Eu disse que gostava daqueles sambas e chorinhos com um toque francês, ele retrucou que não era muito a praia dele. Eu pedi o CD emprestado, ele com um certo receio me emprestou. Seu receio se mostrou certo, pois até hoje não devolvi aquele Nicolas Krassik pra ele.
Mas você deve estar se perguntando o que tem a ver um violinista clássico com um sambista dark. O que aconteceu, foi que ao ouvir o CD, repleto de bons sambas, teve um, em especial, que chamou minha atenção. O francês mandou a “Luz Negra” de Nelson Cavaquinho. Confesso que uma de minhas primeiras reações foi querer chorar, tamanha poesia que rezava o violino ao transformar aqueles versos num choro erudito e popular, francês e carioca, burguês e favelado, mas, sempre e unicamente, solitário. O violino teve em Nelson seu mais fiel parceiro na poesia da solidão, um samba sinfônico que não tinha nada de dark. Pelo contrário, o refinamento da música mostrava o quão sofisticado era o samba em sua forma bruta e quão bela era a melodia inlápide desse sambista dark.
Mas, violinos, sambas e franceses a parte, é agora em 2006 que o Brasil completa 20 anos sem Nelson Cavaquinho. Termino esse texto com um pequeno verso dele, apenas para espantar a escuridão desses tempos. “E o Sol há de brilhar outra vez...”
Nelson Cavaquinho
samba