Produtores: Guy Sternberg
Embora pouco conhecido mundialmente, o alemão Maximilian Hecker adquiriu significativa popularidade na ásia oriental (especialmente na China) nos últimos anos, fato que o fez divulgar massivamente seu novo e quinto álbum de estúdio, "One Day", por essas bandas mais uma vez. O músico fora marcado na cena indie por canções como
Polyester, a não menos melancólica
The Days Are Long And Filled With Pain,
Daylight e
Fool, faixas que envolvem um relaxante, porém doloroso e angustiante implemento sonoro e lírico. Hecker sempre foi concebido pelo seu engajamento assaz deprimente e utópico, lembrando os bons tempos de
Joy Division,
The Smiths e, recentemente,
Radiohead no âmbito rock/alternativo, entretanto o jovem europeu distoa em alguns elementos em relação aos seus pais: há certo profundo romantismo e doçura quando escutamos algo agraciado pela sua voz, sensível e compenetrante. Isso, somado às suas composições íntimas e absolutamente pessoais, formulam o ícone quase incomparável que ele arquitetou durante esses mais de 10 anos de carreira. É um tanto engraçado olhar pra tudo isso e perceber como há um crescente público jovem adotando o perfil musical dele, por exemplo, como brado para seguir em frente em suas vidas, indicando talvez o sinal dos tempos, e a instauração da doença que provavelmente mais cresceu durante esses últimos anos nos centros urbanos: a depressão. O álbum com maior lamúria de Hecker, "
Lady Sleep", de 2005, não atingiu grande consentimento geral no mundo, mas retrata bem esse cenário e provou ser, certamente, um dos repertórios mais tristes na indústria fonográfica, dignos de palmas de pessoas como, nos tempos modernos,
Antony Hegarty e, nos tempos dourados,
Morrissey. O primeiro single foi
Help Me, promovido com um vídeo em preto e branco ilustrando uma mulher visivelmente desleixada, fumando e, óbvio, desesperançosa a respeito da sua vida. A instrumental
Dying, um inspirador hino à desilusão, é outro ponto que engloba perfeitamente o tema aqui abordado. É importante salientar que, apesar de se reter à melancolia na maioria das suas gravações, a esperança e o positivismo sempre tiveram espaços no seu já abrangente catálogo. É via de fato que o assunto principal ressaltado nas suas obras é o amor, no entanto com maior ênfase às consequências negativas que o próprio surte nas vidas das pessoas. É a rejeição, ilusão e o sentimento platônico engrenando de vento em polpa. É tentar maquiar a infelicidade, tirar algo disso, refletir e amadurecer-se, bem como seus pioneiros o fizeram e fazem. E olha que ela fica bem bonita...
"The ending of our riot, the ending of our pain", diz Hecker, enquanto implora a sua amada para amá-lo mais uma vez em
This Poison Called Love (Home In A Town That Has Sunk). Os arranjos orquestrais produzidos em determinadas faixas são belos e mencionáveis, recheando sonicamente um dos álbuns mais alegres e lúcidos dele; pra não dizer o mais. O primeiro single foi
Misery, música em que o narrador não admite a miséria de uma pessoa e clama que irá lhe retirar do fundo do poço, pois ele a quer. A faixa é agressiva, sob os ruídos da guitarra e a voz áspera à la
Bob Dylan - uma de suas influências - porém se apresenta amável diante de tal balbúrdia melódica. O segundo single,
The Space That You're In, canção também oferecida a ainda mais indie taiwanesa
Waa Wei, vinga talvez como uma das melhores músicas na carreira do músico alemão. Mais uma vez, não podia ser diferente, ele disserta sobre a inviabilidade de uma paixão e afirma que nunca poderá estar no mesmo espaço em que a sua pretendida está - parece um análogo à distinção de personalidade e costumes entre duas pessoas, não é mesmo?
The End Of Longing, em que ele pergunta se pode compartilhar de todos os seus medos com a sua amada, é orquestradamente estupenda, assim como a letra é uma das mais cativantes do rapaz. Ouvindo o álbum você verdadeiramente sente certa paz, harmonia e ponderação, o que revela que realmente houve mudança na musicalidade e, mais perceptível, no conceito que Maximilian imprime ao longo das suas melodias. Houve inclusive espaço pra dançar, em
Summerwaste, por exemplo. Parece que Hecker definitivamente dá adeus ao seu passado nebuloso e caminha em direção ao amadurecimento. Fatos que poderiam agregar na avaliação de que esse se sujeitaria em um dos seus melhores álbuns, mas infelizmente mostra-se o contrário. Ainda que sentimental e mais humano que a maioria das mensagens que artistas disseminam pelo universo sonoro, ele falha em termos de inspiração e, pior, na sua obsolescência. A manjada fórmula de Hecker parece ter entrado em decadência, desde de seu anterior disco, "
I'll Be A Virgin, I'll Be A Mountain", em que ele deixou de lado as produções mais elaboradas, que agrupavam rock com eletrônico, e optou pelo acústico e a simplicidade. Não que a simplicidade não convenha, mas a forma em que ela é flacidamente aplicada, sim. É bom esclarecer que o álbum dele não é ruim; mas omite fatores fundamentais que estiveram presentes em tempos antecedentes do cantor.
Miss Underwater, a declaração de amor à moça do fundo do mar, também dada à aspirante indie taiwanesa
Faith Yang, poderia muito bem ter sido um dos singles. Apesar dos versos repetitivos, a ambientação é serena e apaixonante. A mágoa vem à tona em
This House Called Love e
Wind Down. Na primeira, ele compara o amor a uma casa, em que se sente seguro e protegido. Já na segunda, apesar da voz murmurante, ele motiva seu interlocutor e afirma que tudo não está perdido. Ele decreta o fim da sua solidão em
All These Cradles' Blankets Will Never Veil My Whole Substance, seguida de
One Day, que encerra o trabalho, com o foco na esperança. Ficou bem claro que essa é sem dúvida a obra mais positiva dele, não é verdade? Intercalando bons e maus momentos, fica difícil dizer que esse é um dos seus melhores projetos. É evidente que o talento dele é respeitável e, melhor, único. A esperança que fica é que, agora, num futuro pouco distante, ele possa nos amparar com algo superior, que se ate aos seus particulares marcos
Infinite Love Songs e
Rose, lançados sob o selo
Kitty-Yo.
É interessante como esse cenário todo me lembra de
Bright Young Things... Lembra.
Melhor Trecho:
"There was this day when I had found you
At first you smiled but then you fell blue
Your eagle eyes they seemed to ask me
'Are you my thorn bush or my fruit tree?'"
The End Of Longing