À noite, quando poucas pessoas se aventuram em caminhadas, nos deparamos com os donos de cães em seus passeios nas quadras, mendigos, garotos que vagam pedindo esmolas, esquisitos de todas as tribos e você, que se considera um cara normal, ali, dividindo calçadas em gramados, em uma trajetória descaracterizada, em círculos, ao som de Red Sparowes. Uma batida forte, guitarra e bateria, pequenos ensaios de orquestrações, suave e pesado, lirismo disfarçado de agressividade.
Tempos atrás, após participar da realização de um curta-metragem, em película, que jamais ficou pronto, sobre dois malucos desnudos que cospem fogo, andam sobre vidros e enveredam-se nas ruínas de prédios inacabados do centro da cidade, ocasionei um fato que incomodou os presentes. A produtora gentilmente me ofereceu uma carona para casa. Eu, em agradecimento, declinei. Todo mundo olhou pra mim. Mas você vai voltar para casa andando? Sim, respondi. De novo, todo mundo olhando. Poxa! Será que andar é tão ridículo assim? Caminhada de 20 minutos apenas. E lá fui eu.
Leitor de Walter Benjamin, atento a uma estética comportamental da modernidade, sempre considerei louvável a atitude do caminhante que busca se perder na cidade. Uma espécie de paixão: percorrer vielas e becos, inclinar-se por cruzamentos em direções opostas, esquecer das indicações dos logradouros, dirigir-se ao oculto. No ensaio “Haxixe em Marselha”, Benjamin narra sua aventura pelas ruas da cidade após a ingestão de haxixe. À maneira de Baudelaire e seu Club dos Haxixins, dissolveu uma bola da substância em uma xícara de café. Quarenta minutos depois, com a mente pulsando em imagens, idéias e sensações, desprovido de sentido, levado por uma mágica intuição, nosso marxista melancólico observa detalhes arquitetônicos e fisionomias humanas. Observar atentamente o rosto de um anônimo e guardar para si. Determinar um personagem real em uma vaga de imaginário. A multidão como esplendor. O flanêur é uma persona poética da modernidade. Sofisticada marginalidade.
Na urbes do Sr. Lúcio Costa as vielas e o oculto inexistem. O flanêur brasiliense precisa se deslocar do seu cenário para se perder no seu mundo particular. Uma idéia se segue a outra, adensando movimentações, e sob um céu de meia esfera quase perfeita sobre seu zênite, onde as linhas urbanas respondem a um pragmatismo dos sentidos, um fator psicodélico nos traz vielas e cruzamentos, e assim caminhamos e pensamos. Onde tudo é visível na escala infinita, nossos pensamentos parecem nos soltar de dentro de nós, aura e fantasmas, e tudo vagueia em desencontros ilimitados.
A audição de Galaxie 500 nos leva para alguma festa dos anos 90 perdida nas retinas. Não que suas músicas fossem apresentadas ao público, mas já embriagado, no toca fitas do carro, voltando do Park Way para a Asa Sul, nos indicava alguma emoção de um não triste ou um sim avassalador. Beijos e baseados, dj’s eletrônicos, roupa escura e assuntos joviais: música, paixões e esperanças.
Minhas primeiras caminhadas, ditadas por uma correlação com a cultura, ocorreram no final dos anos 80. Percorrendo as tardes de sábado e domingo ao Cine Brasília, Cultura Inglesa e Cultura Hispânica - cinema alternativo, Wenders, Fassbinder e O Selvagem da Motocicleta -, ao som dos Doors, divagando sobre a falta de sentido de sua adolescência, atravessando as superquadras, interceptando o Eixão e a W3, uma catarse simbolista de helenismo e decadência, percebia-me distante de tudo. Nas quadras 700, as casas em blocos, muitas pessoas arrumando seus carros e motocicletas. Motor! Brasília é a capital do país, se eu não estiver equivocado, com a maior proporção de veículos por habitante. Todos precisam de carros nesta cidade sem esquinas e com linhas de ônibus deficientes. E eu continuo caminhando, já para os anos 90, universitário, leitor de Bakunin e Malatesta, revolucionário, penso, decerto pregando o desregramento dos sentidos.
Fecho as janelas e lanço-me ao desterro. Do início da Asa Sul sigo para as embaixadas. Estou indo para o Palácio da Alvorada, vegetação seca e luz estourada, já passei a Vila Planalto, escuto Nick Cave, seguindo à beira do asfalto, aproximo-me do Palácio do Jaburu, residência do vice-presidente. E então ouço latidos. Fazia um frio incomum, minha jaqueta estava sobreposta a um casaco, muito pano e os latidos mais próximos. Nesta parte vazia da cidade, com muito cerrado e palácios presidenciais, 2 enormes vira-latas, provavelmente de propriedade dos carroceiros que montam seus barracos nestes locais, em minha direção, agressivos e latindo alto, me deram pouca opção. A mais próxima era uma paineira, com seu indefectível caule e galhos com protuberâncias pontiagudas. Primeira tentativa. O casaco dificulta o movimento. Latidos próximos. Na segunda tentativa fiz um esforço considerável. Um fio de sangue já escorria da minha mão. Inspirar, alongar e pular. Nada. E mais um pouco de sangue. E os latidos ainda mais próximos. Dois vira-latas enormes, latindo, dizendo: eu vou te pegar, eu vou te pegar. Terceira tentativa. Eu sou homem, porra, eu vou conseguir. Inspirar, alongar, muita raiva e desespero, fios de sangue na mão, e pula. Ufa! E os filhos da puta circulam a árvore no exato momento que estou subindo. Veja só! Eu, um cara sem maldades, há pouco com uma idéia estúpida de acabar com a minha vida, leitor de Dostoievsky, e agora, buscando proteção em cima de uma árvore por causa de dois vira-latas pulguentos e faisqueiros... Ridículo! Aqueles minutos de algazarra canina me fazem esperar, e eu observando a tudo de cima da paineira, cheio de dor por aqueles malditos espinhos, vejo-os indo embora com a satisfação do dever cumprido, esboçando um sorriso. Sim, eles abriam a boca em uma expressão explícita de escárnio. Como diria o vigarista, raios!
Após algum tempo desço da árvore e sigo ao Museu de Arte de Brasília. Péssimas instalações de um museu que parece eternamente ser provisório. E de alguns Athos Bulcão, Siron Franco, Cildo Meirelles, pouco há de interessante. Uma hora passeando com arte. Minhas mãos com filetes de sangue e a escultura de vinil, simulando uma pietá, próximo ao jardim do edifício. Estrutura de cores e a lâmina d’água do Lago Paranoá. Logo atrás o Palácio do presidente, das curvas harmônicas de Niemeyer. Um vazio amplo e horizontal, de cálculos matemáticos, suspendendo o concreto no ar, permitindo o vento flutuar na estética modernista da Carta de Atenas. E nesse ambiente de azul e atmosferas, de concretos curvos, de monumentalidade e automóveis, seguimos o caminho de volta para casa.
Micatone propicia serenidade. No som do computador, com as janelas abertas, a constatação de que ninguém ligou para você nessa ausência. Há uma flâmula de saudade se movimentando. Seu último amor é incerto, sem razão de retorno. A música é triste e você, inquieto, acende uma vela para observar o sibilar da chama produzindo sombras na parede. E você pensa nas paixões soterradas. E você fecha os olhos e tenta não pensar mais em nada.





