Destaco a entrevista onde diz o que pensa a respeito de sua própria evolução pessoal para Rachel Quintiliano.

Playlist do Álbum
1. Quebrando as Algemas
2. Tamo Junto
3. Fênix
4. Última Viagem
5. Bem-Vindo a Madrugada
6. Mundo dos Sonhos
7. Me Faça Forte
8.Conflitos
9.
Salve-se Quem Puder
10. Eu Sô Função
11. Seja mais Você
12. A Favela Agradece
Gravadora: ATRACAO
Tem gente que aprende a fazer música no conservatórios, gente que aprende a tocar samba no fundo do quintal e tem gente que de tanto ouvir e se identificar com certas letras e ritmos ..do dia para a noite começa a fazer rap.
Com Marcos Fernandes de Omena foi mais ou menos assim, porque um de seus principais passa-tempos era ficar prostado na frente do rádio ouvindo os programas de black music e rap. Mas só depois de muito ouvir e observar os caminhos que o rap nacional estava trilhando, Marcos virou Dexter e a partir de 1990 começou a escrever suas próprias letras. “Marvin Gaye, James Brown, Jorge Bem, eu ouvi muita coisa, sons românticos, mas também de protesto e de tanto ouvir rádio comecei a perceber que os rap’s ficavam pouco tempo na programação das rádios, até que foram chegando grupos como Racionais, Thaíde e DJ Hum e DMN entre outros e esses caras conseguiam permanecer mais tempo nas paradas”.
Nesta época Marcos era integrante do grupo Tribunal Popular, - conhecido e respeitado hoje como Velha Escola - mas o mc ainda estava longe de ser um dos principais “personagens” do cenário hip hop nacional. O tempo foi passando e as coisas começaram a mudar para Dexter e em 28 de janeiro de 1998, Marcos Fernandes de Omena, assim como muitos outros jovens, passou a fazer parte da tão conhecida e temida massa carcerária. - Agora eu sou ladrão artigo 157, as cachorras me olham os playboys se derretem (Racionais MC's) - .
“Quando você chega os caras te dão um rolo de papel higiênico, um prestobarba, uma pasta e uma escova de dentes e isso tem que durar até o fim da sua pena. Você pode pedir ajuda para os (as) assistentes sociais, mas tem muita gente precisando e a família de cada um é que acaba realmente segurando as pontas. Quase não existe incentivo e trabalho dentro das penitenciárias. O governo diz que gasta uma grana conosco, mas nem tudo vem pra cá como deveria e para onde vai então? Vai para o bolso de alguém, de gente muito próxima de tudo isso”, diz Dexter.
Segundo o Relatório de Desenvolvimento publicado em 2005 pelo PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), nas últimas duas décadas houve um crescimento em todas as modalidades de crime no Brasil, em especial os homicídios, entretanto, ao contrário do que muita gente pensa, os pobres e pretos, não são apenas os autores desses casos, são também vítimas. As pesquisas revelam que os negros (pretos e pardos) são os principais alvos da violência letal e que as taxas de homicídios são mais altas nos bairros em que a renda é menor e os serviços mais deficientes.
Diante desta nova realidade, por algum tempo, a música se calou e os pensamentos do MC se negavam a virar letras de rap. Até que em 1999, Dexter e Afro-X lançaram de dentro da Casa de Detenção de são paulo – Carandiru - , o álbum Provérbios 13 e assim surgiu o grupo 509E. Este primeiro trabalho trouxe produções assinadas por DJ HUM, MV Bill, Mano Brown e Edi Rock entre outros e foi um grande sucesso, as músicas eram tocadas constantemente nas rádios e o grupo conseguiu inclusive autorizações para realizar shows fora do sistema carcerário. “Quando o 509E apareceu ninguém falava que tinha parente preso, depois isso começou a acontecer, todo mundo passou a mandar um salve para os caras aqui dentro. Nós ajudamos a levar para fora daqui uma outra visão do que é a cadeia. As pessoas começaram a perceber que aqui também vivem seres humanos que têm defeitos, virtudes e carências, mas que também tem muito talento”.
Segundo Dexter, o rap é uma indústria poderosa, mas também uma válvula de escape e resistência para quem é preto e pobre. O MC tem consciência que outros movimento são importantes, como o próprio movimento negro e o MST, mas só se sente à vontade para falar do rap. “É isso que eu faço. Eu faço rap e é disso que posso falar”.
Em 2003, depois de quase quatro anos de parceria e dois discos, Dexter e Afro-x resolveram trilhar caminhos diferenciados e em 2005 Dexter lançou o álbum “Exilado sim, Preso não”.
Exilado sim, preso não....... Sô Função
No final do ano de 2004 e início de 2005, Dexter começou a planejar o primeiro trabalho solo. Segundo o próprio MC as idéias vão surgindo conforme a vontade. “As vezes escuto um som e penso em fazer uma letra. Cada som, cada instrumental exige uma determinada letra e vice-verso”.
Este primeiro trabalho solo, intitulado Exilado Sim, Preso Não traz doze faixas e participações de outros grupos e mc’s, como GOG, MV Bill, Função, Tina e Mano Brown e é notável a semelhança entre a forma de escrever e produzir de Dexter e Mano Brown. Quando questionado sobre isso, Dexter é categórico em dizer: “ o Dexter é o Dexter e o Brown é o Brown, mas nossas essências são parecidas, eu e ele temos várias paradas em comum, eu faço parte dessa escola, desse seguimento, tenho ele (Brown) como meu padrinho e o Racionais como inspiração. A maneira dele de fazer música é muito verdadeira e a minha não é diferente, assim como não vejo diferença na forma do GOG, do Edi Rock, do Bill e tantos outros com quem me identifico”.
Curiosamente o encarte do CD traz fotos de grandes líderes de movimentos políticos e sociais que estiveram de alguma forma em regime de cárcere, entre eles o atual Presidente da república, Luiz Inácio Lula da Silva, Angela Davis, Steve Biko, 2 Pac, Stanley Willians e Malcon X. Após as fotos o seguinte dizer: Todos eles também já estiveram em cárcere privado, e nem por isso deixaram de ser grandes homens e grandes mulheres. A prisão é um grande aprendizado.
Exatamente por isso, Dexter se identifica como “Exilado”, conforme o título de seu CD. “Minha mente continua funcionando, mesmo estando aqui eu me considero um liberto das coisas que o sistema oferece, como por exemplo, o álcool e as drogas. Mas o título do álbum surgiu quando eu estava lendo o livro Exílio na Ilha Grande, de André Torres. O Autor entendia seus escritos como documentos e eu entendo minhas músicas da mesma forma, é por isso também que me considero um exilado”.
Para o MC tudo tem um lado bom e pode-se aprender muito sobre respeito quando se esta encarcerado. “Você aprende a respeitar as pessoas, a discutir com ética, com elegância. Quando eu cai aqui e perdi minha liberdade pude perceber o que estava fazendo da minha vida, a respeitar as pessoas, seus defeitos e o espaço de cada um. Estou preso há oito anos e o que a TV mostra não é verdade, se as regras internas da prisão fossem estendidas para o mundo aí fora as coisas seriam bem melhores”.
Claro que a prisão por si só não é capaz de tantas transformações. Dexter compreende que o rap tem um papel importante na sua trajetória. “ Hoje eu me vejo como um a mais na batalha que agente trava todo dia contra o sistema. O rap foi e vai continuar sendo um fator muito importante na minha vida e eu quero muito curtir esse respeito e carinho que a rapaziada tem por mim”.
Apesar deste primeiro trabalho ter rendido seis prêmios, entre eles o de melhor álbum no prêmio HUTUZ 2005 e o do próprio MC afirmar ter conquistado um espaço no cenário hip hop, isso não o torna melhor ou maior que os outros. Além disso, Dexter não se identifica como artista, para ele artista é o Silvio Santos, o Fernando Henrique Cardoso, o Maluf. “Eu não faço arte, faço arma, o rap é uma arma e por isso eu também sou um revolucionário. As letras surgem do dia-a-dia, da leitura, da raiva, da revolta, da fé, da esperança e do amor. Meu Deus é o rei do universo e é ele que me sustenta e me renova a cada dia. Minha missão é cantar rap e eu aceito minha prisão, aceito esta situação porque sei que errei perante a lei dos homens”.
Quando sair da prisão Dexter pretende continuar fazendo rap, montar um estúdio, tocar sua grife, 8º Anjo e para além disso, aproveitar a liberdade, ter filhos e curtir os amigos.