Mais precisamente em 2008, um dos principais e mais lucrativos mercados fonográficos no mundo, Estados Unidos, encontrava-se com um pop sob um misto de eletrônico/hip-hop/dance, com expoentes como
Akon,
Beyoncé,
Jay-Z,
Kanye West,
Usher,
Black Eyed Peas e
Ne-Yo. Até mesmo a flamejante girl band norte-americana
The Pussycat Dolls havia aderido ao movimento nesse período. Foi então que Madonna, sem dúvida uma das mentoras do eletropop atual e precursora no gênero, decidiu entrar na onda e, antes de tudo, na tendência do momento. Poderíamos dizer que um dos principais objetivos dela é a conquista da massa, não? Estar sempre em evidência, seja qual for o período, desfavorável ou não. A Madonna tem sim uma necessidade e talvez até mesmo obsessão, pelo posto o qual ela nunca espera sair: o popular. O "Hard Candy" mostrou mais uma vez que ela sempre tentará se adequar ao que há de mais aclamado popularmente, mas sempre retendo um pouco a música dance/eletrônica, pois é a sonoridade que sempre a caracterizou. No novo trabalho, Madonna (Ou seus assessores) propôs: o álbum seria uma mescla de hip-hop e eletrônico. Para ser mais exato, R&B. Pharrel Williams, o mesmo que trabalhou com diversos músicos renomados e, há pouco tempo atrás, apareceu com maior foco quando colaborou com a antiga integrante do
No Doubt,
Gwen Stefani, foi convocado para a seleção de produtores do novo álbum da musa. O artista do momento Timbaland, que havia gerado sucessos estrondosos nos EUA ao lado da antes simples e modesta
Nelly Furtado, também fora selecionado. Assim como Danja, veterano produtor responsável por inúmeros grandes sucessos no pop pela América e que acumula trabalhos com
Britney Spears,
JoJo,
Lil' Wayne e
Chris Brown. Justin Timberlake, aquele que apareceu fortemente em 2002 com
Rock Your Body, também se juntou aos colaboradores. A Madonna queria chegar. Mostrar quem é mais uma vez. Mostrar que é potente e nunca se enfraqueceu, ainda diante de novas mobilidades e imprevistos no mercado da música. Ela quer impactar, chocar e dominar. Algumas das quase obrigatórias proposições para se concluir que um artista é pop ou não. É a obstinação pela fama, glória e aderência, que a Madonna nunca mostrou perder... Isso tudo parece demasiado ganancioso, perverso ou pretensioso demais, não? Dispensável, diriam alguns. E então? Qual é o problema? Há algum? Eu acho a Madonna um pouco sincera, pra ser honesto com vocês. É óbvio que é interessante moderarmos nossas presunções, mas musicalmente, acredito que todos que estão aí fora querem fazer algo que ao menos agradem algum bom ou admissível número de pessoas. Sendo franco, não deveríamos muito colocar isso em consideração quando avaliamos a música e não o caráter ou a personalidade de alguém, não é mesmo? O que é privado da Madonna, pertence a ela. Agora, suas obras, são públicas...
Bom, sabemos desde o início que grande parte dos álbuns da Madonna são para dançar, certo? As mensagens geralmente são bem diretas, com músicas quase que completamente compreensíveis. Mas não se engane levando para o lado pejorativo quando afirmo isso. Há líricos proveitosos e acrescentáveis sim, apesar da temática quase sempre se estagnar ao redor de um central assunto. O primeiro single do álbum foi a mais conhecida e popular contribuição entre Justin Timberlake, Timbaland e Madonna,
4 Minutes. É complicado dizer que foi inexoravelmente o maior sucesso pop de 2008, porque no meio da briga, temos
Viva La Vida do
Coldplay,
The Promise da girl band britânica
Girls Aloud,
Mercy da
Duffy e coisas instantâneas da
Katy Perry,
Ne-Yo e
Rihanna. 4 Minutes abre com Timbaland dizendo, bruscamente: "I'm out of time and all I got is 4 minutes... (Estou sem tempo e tudo que tenho são 4 minutos...)", juntamente a alguns "malabarismos" no vocal ao final da sentença. A faixa aborda alguma relação, seja ela sexual ou não, com um parceiro em meio a um suposto e imaginário fim do mundo que ocorreria dentro de 4 minutos. Ok, sejamos mais direto ao ponto: o mundo está acabando e precisamos fazer sexo logo antes que morramos. A música é uma espécie de dueto com Justin e ela, em que eles trocam alguns passageiros diálogos, com sedutoras mensagens curtas e objetivas. É ótima pra dançar ou se descontrair um pouco. Outra com proposta similar, porém com a presença permanente do violão, uma precurssão agradável (Tente não se envolver com o beatbox ao fundo) e um lírico sentimental,
Miles Away foi o terceiro e último single do álbum. "Você sempre me ama mais / A Milhas de distância", diz Madonna, induzindo a idéia por trás da música de que o narrador e seu parceiro sempre conseguem intensificar o afeto e se amarem mais quando um sente a falta e a distância do outro. Nesse contexto, a distância não denota um obstáculo à paixão dos dois, mas sim um empecilho que nutre o sentimento que um possui pelo outro, ao desenvolver a saudade e a carência que antes de tudo agregam na suscitação do amor por parte de alguém. Outra em dueto com Timberlake,
Dance 2Night é um dos pontos fortes. Embora a letra seja realmente simples, com algumas advertências de que você não precisa ser rico, famoso, ou bonito, para ser entendido e respeitado, a música é simpática e prazerosa. É uma das que se desvencilham temporariamente do hip-hop, pro caso de você não ter assíduo apreço ao gênero. Provavelmente a mais puramente eletrônica e melancólica do álbum,
Devil Wouldn't Recognize You é outro imperdível momento. Nesta, o narrador está profundamente desapontado com alguém e queixa que apenas ele o conhece. As letras são brandamente abarrotadas em ódio, mostrando que o eu-lírico, apesar de rancoroso, parece atônito mediante toda a farsa que descobrira em relação ao receptor das suas palavras. O coro próximo a ponte é tenebroso, e o piano, introduzido em distintos momentos na faixa, exorbitante (Pra quem conhece a série de terror psicológico Silent Hill, ele não se parece um bocado com
Promise (Reprise) do
Akira Yamaoka? Será que esse time de produtores aí andou jogando? Ou quem sabe até mesmo a Madonna? Tá bom, parei...)
Give It 2 Me foi o segundo single e é outra faixa que alude em partes com a sexualidade, porém agora prevalece a idéia "carpe diem", em que o narrador assegura que devemos sempre aproveitar ao máximo nossos melhores momentos, deixando fluir naturalmente nossos sentimentos e excitações. Em suma, não levarmos a vida sempre tão a sério e descontraírmos quando possível.
Candy Shop abre o álbum e literalmente a doceria de Madonna que estaria por vir. Ela é bem simplória, realmente fazendo a introdução ao disco, com Madonna nos convidando para degustarmos metaforicamente de suas guloseimas. Pharrell, que em diversos instantes apóia no vocal com ela durante o álbum, profere as últimas palavras da música, anunciando que a Madonna chegou para mais uma e seu impacto será sentido mundialmente, desde o Reino Unido e EUA, até o Japão. Não ousemos discordar dele, não é mesmo? Em
Heartbeat, Madonna esclarece a satisfação e prazer que possui em simplesmente dançar para uma pessoa que parece não assimilá-la muito bem, detalhando que sempre se sente livre e no auge de sua felicidade quando está numa pista de dança. Ela completa pedindo para que essa pessoa que não compreende seu vício pela dança, sinta o seu batimento do coração e assim entenda toda sua fixação.
Beat Goes On foi a única em colaboração direta com o rapper norte-americano Kanye West. Nesta, mais uma vez, explora-se a dança e toda extasia que sentimos quando escutamos alguma batida musical envolvente. O instrumental é um dos melhores, o que a torna quase irrefutavelmente uma das faixas mais vibrantes do projeto. O que conseguimos perceber até então, no lírico de "Hard Candy", é a profunda e severa entrega emocional do narrador aos seus instintos, evitando maiores compromissos e se deixando levar naturalmente pelo momento, o que poderia na prática acarretar em um comportamento impulsivo e até mesmo impensado, não é mesmo? Porém o cerne do décimo-primeiro trabalho da Madonna, em sua totalidade, parece ser esse: a obtenção do êxtase em suas emoções.
She's Not Me, como o nome sugere, mostra uma Madonna reinvindicando ao seu aparente ex-companheiro que a sua atual parceira não tem absolutamente nenhuma relação com ela, embora a outra se vista como ela, aja como ela e reflita todas as suas minúcias, tentando, ao que parece, ser de fato a Madonna, quando apenas copia suas particularidades. Não sei por que, mas isso me lembra as costumeiras rixas entre
Kylie Minogue e Madonna, não acha? Pois bem... Em seguida, a apaziguável e otimista
Incredible positiva a ambientação no disco, nos apresentando um narrador mais divertido, emitindo que tudo vai incrivelmente bem e não gostaria que aquele bom momento acabasse. Como se não bastasse, elementos sexuais e afetivos são incrementados à temática também nessa última.
Spanish Lesson é uma tentativa em hip-hop de certa forma, a meu ver, fracassada de se remeter, em sua aura, a famosa
La isla bonita. Em um ritmo bem latino, com violões fundidos a batidas black, Madonna interpreta uma professora espanhola um tanto obscena, dizendo para seu aluno que quando ele terminar sua lição de casa, ele será recompensado com mais de alguma coisa. O que seria essa coisa, heim? É, não tente ouvir Madonna achando que ela irá falar de matemática, física ou biologia... Apesar disso, meu desgosto pela faixa não é unicamente lírico, todavia melódico. Ao mesmo tempo que penso ser experimental, concluo que é suficientemente bizarra e incomum às demais do álbum. É provável que seja o período libertino dele...
Voices finaliza, com a contribuição de Timberlake. Igualmente um dos pontos altos, sua harmonia é orquestradamente gostosa e muito bem produzida por ninguém menos que Timbaland. Na letra, Madonna prossegue com sua amargura iniciada na faixa antecedente e dissemina hostilidade para com o receptor da mensagem, dizendo arrependida que acreditou em suas palavras. Ela também afirma que ele é muito instável, ora na suplica jurando que a ama e ora no desprezo a rejeitando. A pergunta que ronda incessantemente a cabeça do narrador e que tenta compreender quem é de quem na relação, é a seguinte: "Quem é o mestre, quem é o escravo?" Ao que parece, a faixa termina sem resposta. Talvez porque eles sejam os dois ao mesmo tempo, dependendo das circunstâncias... "Hard Candy" termina bem, com uma sensação até mesmo um pouco épica. As colaborações só vieram a acrescentar, felizmente. Como já estávamos acostumados considerando as experiências anteriores com ela, o álbum também focou os sentimentos humanos, salientando a atração, valorizando a devoção e lidando, em localizadas canções, com a raiva e a mágoa. Ou seja, contextualizando as mais variadas emoções humanas, desde a ponderada e racional (que tiveram pouquíssimos - quase inexistentes - espaços no álbum), até as infantis vingativa e repulsiva (estas duas últimas, marcando maior presença). É um bom trabalho pra dançar, relaxar e conhecer alguns lados nossos que antes poderíamos até mesmo desconhecer. O divertimento é garantido. Claro, se você autorizar a si próprio se entreter com o material... Madonna mostra que é mesmo a rainha do pop, ao lado do já tragicamente falecido
Michael Jackson. Ela é o cume do gênero cuja sacada é absorver o público máximo possível. No âmbito artístico, marque-a bem... Não haverá outra igual por aqui...
Melhor Trecho:
You always love me more
Miles away
I hear it in your voice
We are miles away
You're not afraid to tell me
Miles away
I guess we're at our best
We are miles away
Miles Away