A busca por uma boa definição esbarrou no lugar comum. A felicidade foi a primeira tentativa. Mas não é o escopo da matéria estudada. Ela é terreno de acomodação, o blefe da esperança. Aventuramo-nos à paz, mas encontramos o mesmo equívoco. Mais um terreno de acomodação. Tranqüilidade, então...
E qual o fundamento da psicanálise? Levar-nos à solidão. Trazer os fragmentos de diversos elementos para si e negar a nossa unidade. Somos seres em movimento, precisamos refutar nosso instinto de permanência. Sair da terra - um passado de invólucro de substâncias vitais. Amores e verdades consistentes desmancham-se com o tempo. Sofremos. Mas também nos apercebemos distantes daquilo que nos gerou. E nos desapegamos daquilo que nunca nos pertenceu. Flutuar no espaço é desejo de libertação.
Diante do quadro, representação cubista referindo-se à guerra, os fragmentos estão conectados em um cenário vibrante. Caos e finitude. O ser humano pode ser isso: negação da ordem externa e consciência dos limites. Explosão interna para que sejamos o outro em nós mesmos. Descobrir-se é uma travessia.
Cenário em vermelho e ocre, ser e paisagem indefinidos, máquinas e emoções. Em 1914 Drummond atestou a morte do último lírico. Nesta data, o pai do meu pai tinha 9 anos de idade e jamais me relatou o que seria sofrer. Nas guerras do presente as mortes são apagadas das telas e substituídas por alta tecnologia. Nossa relação virtual com o sofrimento é orientada por uma boa política de marketing. A auto-descoberta é trocada por anestesia. Distanciamo-nos dos fragmentos e dos questionamentos viscerais e nos voltamos para nossa unidade original. Aprendemos desde cedo a concordar. Quem ficar por último é a mulher do padre!
Quando alguns jovens se embriagam de questionamentos e desejo de flutuar, há uma significativa possibilidade de se alterar o curso da história. E se aplaudíamos uma representação fiel da natureza, aprendemos a perceber o jogo de cor e luz, de considerar a desestruturação da forma e de propor o ímpeto destrutivo. Aqueles grupos que advogavam uma causa para sua arte viviam seus mundos particulares. Estudavam a si e aos próximos. Romperam com o traço detalhista. Trouxeram o caos, os fragmentos e a perda da verdade original. Em algum momento elas disseram tudo. As vanguardas morreram, pois precisavam fecundar outros nascimentos.
Andy Wharol não é Marcel Duchamp. Uma lata de sopa Campbell’s não é um urinol. A arte moderna aventava a universalidade e a consistência. A arte contemporânea visa os fragmentos. O cinismo de um é a herança da revolta do outro. A permanência é a absoluta falta de charme. A vivacidade é fruto da inconsistência. Duchamp trouxe a morte da arte. Wharol transformou esta morte em artigo de consumo.
Paz e felicidade são artigos caros. A mão estendida ao ser amado, a ansiedade esperando a ligação telefônica, dinheiro, poder, espiral de desejos em materialização. Encaramos nossas questões pessoais de frente. A cortina descerra um feixe de mundo exterior, o silêncio é sepulcral, havíamos há pouco, medida extrema, concordado em buscar a verdade. E somos feto, criança, adolescente e adulto. Fomos muitos em um só. Permanentemente mudando. Sempre desejando nossos artigos caros, jamais correspondidos, vendidos como jornais velhos, acomodados em um canto de um sótão qualquer. O primeiro vento espalhou a poeira de cima de nosso nome e nos reconhecemos quase por inteiro. Nossos pedaços surgem de onde não esperávamos e borram o corpo, preenchido de pulsão. Nossos artigos caros são doces ilusões que, finalmente, sob uma catarse de autoconhecimento, aprendemos a manipular.
A vitrola toca
Funki Porcini. Uma síncope suave de ritmo e melodia - eletrônico, jazz e latinidade. Camadas de tempo sobrepostos, na batida lenta e delicada, e uns graves e agudos se divertem sobre ela, e outros mais, e sem querer, presta-se atenção mais à música que a escrita, seus pés marcam a batida, sua mente flutua, a música se expande, uma pequena alegria em movimentos autônomos e circulares.
Quando escrevo me desvencilho dos ruídos. A incomunicabilidade é o demônio da modernidade. A minha caverna é um rígido branco de vícios e virtudes. Passo horas me debatendo em suas paredes ásperas. Meus bisões são fantasmagorias do passado. Posiciono-os em formas díspares, um perdido do outro, que buscam suas próprias realidades, em escala infinita, nanosensibilidades. Meus artigos caros são interpretados sob uma matriz particular de razão e emoção. Defendo o indivíduo livre. Tenho asco de grupinhos formados por pessoas que negam a autodescoberta. Minha caverna sou eu mesmo dentro de mim. Minhas fantasmagorias são públicas. Estou em contínua mudança. Minha escrita relata esta travessia.
No passado as dilacerações provocavam perda absoluta. Hoje elas representam fortalezas. Minha adorável dilaceração - que me corrói por dentro, me separa em pedaços, me dispersa e me entrega por sussurros e alucinações em um ambiente acolhedor - faz-me observar o mundo por detrás do espelho. Em instantes adormeço e acordo em meu próprio corpo, cujas feridas já se encontram em cicatrização. Meus fantasmas sorvem o meu sangue e eu me sinto melhor. Sou o vampiro das minhas ilusões.
Meu primeiro encanto por arte nasceu quando conheci Adriana Varejão. Ela era apenas uma jovem artista plástica trilhando o reconhecimento. Eu era um adolescente entediado. Quando vi suas telas densas, vigorosas, carregadas de tinta e feminilidade, senti-me agraciado e compreendido. E me interessei, sabe-se lá porque estou fazendo esta correlação, por Kandinski. Suas abstrações me ajudaram a me entender um pouco mais. Suas composições de azul, vermelho e amarelo, sua crença no indizível e sua elegância me ajudaram a me descrever como um solitário sensível. E nestas condições escrevo. Escrevo porque meus ouvintes são escassos. Escrevo porque gosto de arte e imaginação. Escrevo porque meus bisões na parede possuem cores densas e vigorosas.