Federico Aubele

Biografia

Federico Aubele é um argentino que estudou música na França, adotou o violão como instrumento, tocou num grupo pop argentino chamado Vincent Vega e só depois de muitos anos estudando música travou contato com o tango de seu conterrâneo Astor Piazzola. Como muitos outros (lembrou do Gotan Project?), Federico se apaixonou pela obra deste artista.

A maneira como o artista foi contratado por Eric e Rob deveria servir de lição para muita gente que acha que tem talento e não consegue uma oportunidade: segundo sua bio no site da ESL, Federico comprou um single do Thievery, e viu na capa o endereço do site da dupla. Entrou no site, e mandou um email perguntando para qual endereço deveria mandar uma demo. A gravadora respondeu, Federico mandou a tal demo e pouco tempo depois Eric mandou para ele uma longa mensagem elogiando o trabalho, dando algumas sugestões e pedindo mais material. Na sequência Federico assinou contrato com a ESL, e Eric e Rob produziram este excelente álbum de estréia.

Ouvindo o disco, dá para perceber a influência (positiva!) de Eric e Rob, num downtempo com muito dub e tempero latino. Mas o disco é claramente autoral: muito bandoneón, o violão de Federico, em estilo claramente influenciado pelo flamenco, com vocais femininos em espanhol na maioria das faixas. O eletrônico se mescla muito bem com o orgânico, aliás, imagino que em função deste diálogo no disco um show de Federico com banda deve ser algo muito interessante.


Mas vamos falar um pouco das faixas que compõem “Granhotelbuenosaires”: o disco abre com a voz da argentina Sumaia (vocalista do Vincent Vega) cantando os versos: “Pienso Y quanto mas pienso, Yo me pregunto mi amor, Qual es la forma que tengo, Que tengo yo ante tus ojos…”

No encarte, Federico diz que a letra desta faixa (“Ante Tus Ojos”) foi inspirada por um trecho do “Livro do Desassossego”, do poeta português Fernando Pessoa, considerado por muitos o maior de todos em língua portuguesa. Começar melhor do que isto seria difícil.
“Postales”, a segunda faixa, nos introduz ao violão de Aubele. Me lembrei do trabalho do carioca Superágua, no sentido de como um violão bem tocado combina bem com downtempo. O vocal da também argentina Gabriela Maiaru tem em comum com o de Sumaia um jeito “trip hop latino” de cantar: lento, suave, quase sussurando as letras, um tanto hipnótico. Aqui está um ótimo disco para se ouvir bem acompanhado.

“El Amor De Este Pueblo” é um dub instrumental que tem por fundo um discurso de Evita Perón. Federico o compôs durante um daqueles panelaços que acompanhamos de longe pela TV em 2001, num período em que nada menos que CINCO presidentes se sucederam na Argentina. “Mona” é outro tema instrumental, onde o argentino Gonzalo Garcés recita trechos de “El Futuro”, seu terceiro romance (lançado em 2003). Em “Salvacion” aparece pela única vez a bela voz de Federico, que diz ter feito a faixa em uma hora, enquanto praticava cantar em tonalidades mais agudas.

Em “Contigo” o trumpete de Brad Clemens (que aparece aqui e em “Besos de Sal”) nos faz lembrar que o disco tem o dedo do Thievery, é a faixa que mais me lembrou o estilo da dupla. Já “Malena” tem a letra mais melancólica do disco, falando sobre uma cantora de tango que canta com a voz quebrada, por ter pena do bandoneón. Apesar de Malena ser apenas uma idealização de Federico, este diz no encarte que esta deve ser “una chica muy complicada”…

Uma coisa interessante é que dá para ouvir “Granhotelbuenosaires” de duas maneiras distintas, diferentemente agradáveis: prestando atenção nas letras, ou simplesmente relaxando e deixando as faixas se sucederem. O efeito calmante no final é comum aos dois casos, mas quando se presta atenção nas letras ficam algumas idéias no fundo da mente por algum tempo, como se você tivesse acabado de despertar de uma noite cheia de sonhos dos quais só ficou uma distante lembrança.

Editado por RichardCooper em Jan 18 2007, 16h05

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