O fim de Sandy & Junior
Como o fim de 17 anos de carreira pode ser realmente um final feliz para a música nacional.
Após 17 anos de carreira, a dupla
Sandy & Junior, anuncia o seu término da parceria com uma turnê de shows e um último cd acústico, contendo as canções mais famosas desses longos anos de estrada. Cada um segue seu caminho musical e Sandy alega o desejo de fazer faculdade, coisa que nunca teve tempo nesse período de carreira.
Para aqueles que conhecem a dupla de meados da infância com aquele verso "Abre a porta Mariquinha...", e ainda a acompanhou por parte da adolescência, sabe que nos últimos anos chegava a ser irritante ouvir alguma coisa deles. Não pelas letras, claro, longe dos funks e das músicas bahianas, acredito que o grande
pecado da dupla foi cair num marasmo musical. Uns alegam que seria o público alvo, outros a imagem trazida da adolescência, mas não acho que seja exatamente isso. Público-alvo se renova e é fiel, a dupla não conseguiu manter essa fidelidade com o passar do tempo, e quanto à imagem trazida desde longa data, por que então
Chico Buarque,
Djavan e outros artistas com mais de 20 anos de carreira não sofreram do mesmo mal?
Volto ao marasmo musical e recorro à música contemporânea pra argumentá-lo. Ano passado,
Ana Carolina recorre a uma parceria com
Seu Jorge e num curto período de tempo dá origem a um novo sucesso de vendas, com músicas românticas e também com sambas, até pinta um repente na faixa
Carolina. Outro exemplo? Não tão recente, mas posso citar o disco Partimpim da
Adriana Calcanhotto, com canções para o público infantil e que nem mesmo assim deixa de agradar a muitos. O grande segredo da música é não tentar agradar diretamente, não compor arranjos nem escrever letras tal qual o público exatamente queira ouvir. Isso será consequência de um bom trabalho, esperar ansiosamente por algo novo e que eventualmente não fuja muito ao que se está acostumado, mas que seja essencialmente diferente e renovado, que desperte o desejo e a necessidade daquele som.
Recorrendo ao parágrafo anterior, posso remontar rapidamente o Samba Nacional pra exemplificar. Desde grandes clássicos como
Cartola, passando por exemplos mais contemporâneos como
Martinho da Vila e
Dudu Nobre, hoje encontramos o samba misturado à música eletrônica feita por Fernanda Porto. Se você não conhece
Fernanda Porto, talvez considere uma ousadia essa mistura usical, mas assim ela conseguiu unir um ritmo tradicional e puramente brasileiro a uma tendência nova, atraindo o público jovem.
Na contramão, por exemplo, a ex-participante do programa Fama da Rede Globo,
Roberta Sá, mantendo o estilo do samba clássico e regravando músicas famosas atingiu um grande público, sem precisar de tanta reinvenção. Recorrendo à dupla em questão, me lembro sempre das mesmas batidas e das letras sempre falando de "vou namorar com você" quando mais românticas, ou das suas tentativas frustradas de mudar, culminando(?) em "Vamos pular".
Quanto à interpretação não acho que Sandy seja uma má intérprete. Ela tem uma voz bonita e de destaque, mas que estava perdida nas músicas que cantava. Aí rapidamente me passa pela mente
Gilberto Gil cantando músicas de
Bob Marley,
Zé Ramalho gravando
Raul Seixas e até
Maria Bethânia cantando
Roberto Carlos e me pergunto, por que nesse tempo todo Sandy não fez isso? Tudo bem, talvez regravar não tenha tanto sucesso, talvez o público só goste de coisas próprias e então é nesse momento que lembro da cantora
Danni Carlos que só regrava músicas famosas e nem por isso deixou de ter público.
Falando em cantores que cantam músicas de outros, relembro que também existem as parcerias. Recorro às mais triviais,
Ivete Sangalo e o vocalista da
Banda Eva no seu último DVD,
Cássia Eller no seu acústico MTV e
Nando Reis,
Kid Abelha e
Lenine e então me pergunto quantas músicas você já ouviu que a dupla fez parceria com outros artistas? Até a tal da
Wanessa Camargo já gravou com o próprio pai!
Pra finalizar, aviso a todos que ambos irão seguir carreira solo, ela cantando Jazz e música clássica e ele como músico. Serão dois caminhos distintos, mas que o vínculo atual irá levar a comparações, natural. A experiência na música profissional também já ensinou muitas lições aos dois e espera-se que essa nova caminhada já esteja carregada de maturidade, especialmente para aquilo que é necessário saber sobre público e música. No mais, espero sinceramente que dê certo, serão dois artistas de qualidade que irão continuar figurando com destaque no cenário nacional. Porém, também torço pra que essa maturidade evite que eles cometam os mesmo erros de agora pois, enquanto dupla, vejo que a melhor música que eles fizeram só vai começar a ser tocada após o término da última turnê de shows, o silêncio.
Publicado em
http://www.dsc.ufcg.edu.br/~pet/jornal/agosto2007/index.htm