Cascadura

Biografia

Janeiro mal terminou e já temos um dos discos do ano. A frase pode parecer de efeito, mas o sentido é absolutamente verdadeiro. Repito, pois, de outra forma: você tem em mãos, junto a esta edição de Outracoisa, um dos discos que no futuro contarão a história do rock neste 2006.

Os baianos – Fábio Cascadura, que toca guitarra, baixo e canta em “Bogary”, e Thiago Trad, que segura o trabalho com as baquetas – haviam cometido uma “obra-prima” três anos atrás, “Vivendo em grande estilo”. O adjetivo foi colocado propositalmente entre aspas por ter sido emprestado de Nando Reis.
Se em “Vivendo em grande estilo” os cascaduras escancaravam o amor ao rock sessentista/setentista, southern rock, com pitadas de modernidade, agora pariram um álbum mais pesado, mais carregado nas guitarras, denso, mas sem esquecer o suíngue.
O amálgama (e segredo) é a melodia.
Melodia que costura ambos os trabalhos. Que faz pop da música e a eterniza, e que nos faz sentir melhores ao ouvi-la.
Neste ponto, os baianos estão muito bem servidos, obrigado.

O óbvio seria criar uma situação de comparação do responsável pelas canções da banda, Fábio, com os grandes da música pop, como Brian Wilson, Paul e John. Mas não é por aí. Estes estão mais para inspiradores do que pares. Fábio está ao lado de outros músicos iluminados que extraem sons atemporais em levadas e refrões. Algo qual Chris Bell e Alex Chilton (Big Star). Ou ainda Roger McGuinn (The Byrds).
Quando as canções terminam, parece que elas sempre existiram. E na realidade sempre existiram mesmo – compositores com esse talento apenas as extraem do inconsciente coletivo, qual fenômeno sobrenatural.

Em “Bogary”, o rock trafega por estradas velhas conhecidas, esburacadas, como na música de abertura, “Se alguém o ver parado”, a mais “cascadura” das músicas do disco, com guitarra em afinação mais baixa, vocais e as seis cordas atacando por todos os lados no refrão, vocal por vezes sussurrado e um coral de crianças de Angola a encerrar-lhe.

Às vezes, o rock de “Bogary” explode em um quase punk de menos de três minutos, como na segunda música, “Senhor das moscas”, que cativa na primeira audição. Ou então quando mistura essa brutalidade acelerada com “u-hus” e voz enterrada em distorção como em “Ele, o super-herói”.
Martin, ex-cascadura e atualmente um pitty, dá um reforço na guitarra nesta última música e na tão pesada quanto mais lenta “Contra-luz”.
Na linha, puxando para stoner e grunge, “Caim” e “Desconsolado”, na qual o vocal arrisca mais alto e remete a Chris Cornell.
As favoritas atuais, porém, são “Mesmo eu estando do outro lado” e “Onde aprendeu a andar”. Donas de beleza assustadora, vestem o Cascadura com as cores de Teenage Fanclub na raiz de Byrds e Big Star, já citados anteriormente. Duas baladas emolduradas por um lap steel (“Mesmo eu estando de outro lado”) a cargo do eterno dead billie Morotó e um melotron que emula cordas (“Onde aprendeu a andar”), dedilhado por andré t. Este último, outro capítulo à parte.
Além do melotron, andré t assumiu o baixo em algumas músicas e assina, junto com o guitarrista da maioria das músicas, Jô Estrada, a produção de “Bogary”. Mas assina e constrói o trabalho, pois é perceptível a mão da produção a somar e não apenas a registrar – extrai o melhor desse espectro amplo e devolve em tons nítidos e fortes.
O disco fecha com o Cascadura vaudeville, “Adeus solidão”, e uma pista de onde surgiu o nome do trabalho – ouça até o fim. Não só por isso, mas porque cada segundo, neste caso, conta.

Editado por thadeuu em Jun 5 2007, 2h40

Ficha do artista (?)

Não existe informação sobre este artista

Você está vendo a versão 3. Veja versões mais antigas, ou discuta esta wiki.

Você também pode ver uma lista de todas as alterações recentes na wiki ou das wikis recomendadas a você.