Biografia

De onde vem o tango? Até pouco tempo, essa pergunta seria suficiente para encerrar com uma briga feroz qualquer festa na qual estivessem presentes convidados argentinos e uruguaios.

A polêmica sobre a origem do gênero envolve os que crêem que ele nasceu nos bordéis dos arrabaldes de Buenos Aires ou Montevidéu, os que reforçam a importância das raízes rítmicas africanas e os que lembram que Carlos Gardel talvez tenha nascido em Toulouse (França), e não na uruguaia Tacuarembó.

Mas, desde que um grupo de músicos começou a anarquizar a estrutura e as variações do tango, inventando o tal “tango eletrônico”, a discussão encontrou uma solução diplomática. Hoje, gregos e troianos concordam ao dizer que o tango “pertence ao Rio da Prata”.

Principal referência dessa onda, o Bajofondo, que lança agora o CD “Mar Dulce”, é formado por quatro uruguaios e quatro argentinos. A proposta do coletivo é ressaltar o caráter regional e contemporâneo do tango, independentemente de que margem do rio se esteja.

“Esse rio nos une, não nos separa. Queremos estabelecer a linguagem contemporânea daqui, que contemple o som de urbes como Buenos Aires e Montevidéu”, disse à Folha o produtor argentino Gustavo Santaolalla, 55, que criou o grupo com o uruguaio Juan Campodónico, em 2002. “Significa misturar o candombe, o tango e a milonga a tudo o que veio depois, os mais de 40 anos de rock argentino, a influência do pop inglês desde os anos 60 etc.”

“Mar Dulce” é o terceiro álbum do Bajofondo e o primeiro em que surge sem o “sobrenome” “tango club”. Santaolalla diz que o objetivo é internacionalizá-lo, ampliando o contato com o pop e a eletrônica. Além de captar o que chama de “espírito cósmico tangueiro”, algo que estaria presente em vozes díspares, como a do roqueiro britânico Elvis Costello (“Fairly Right”) e a da artista pop luso-canadense Nelly Furtado (“Slippery Sidewalks”).

“Há artistas que, na sua forma de se expressar, têm um sentimento de melancolia, obscuridade e paixão que são a essência do tango. Cantores como Tom Waits, Nick Cave, Chavela Vargas ou Marianne Faithfull poderiam muito bem cantar tango”, explica.

No caso de Costello, Santaolalla diz que seu vibrato lembra muito o de tangueiros do passado. E que Furtado tem um “jeito de moça de periferia, parece ser a ‘girl next door’ de qualquer um que viva numa grande metrópole”, diz.

Um dos destaques do CD é a cantora de hip hop espanhola Mala Rodriguez (“El Andén”). “Sua linguagem do asfalto fala tanto de Madri e Nova York como de Buenos Aires.” Ainda do mundo do pop hispânico, o ex-vocalista do Soda Stereo, Gustavo Cerati, aparece em “El Mareo”. E Juan Subirá, da banda Bersuit Vergarabat, empresta o vozeirão rouco em “Hoy”.

Morta no final do ano passado aos 82 anos, a tangueira uruguaia Lágrima Ríos surge em seu último registro fonográfico, em “Chiquilines”, cuja letra Santaolalla escreveu especialmente para ela.

A experimentação tem seu ponto alto na dançante “Pa Bailar”, música de trabalho do álbum, que conta com a participação do bandeonista japonês Ryota Komatsu. “A preocupação com a globalização do Bajofondo tem a ver com a idéia de contextualizar este lugar. O tango surgiu aqui, mas pertence ao mundo”, diz.

O título do álbum reafirma a tentativa de localização cultural e histórica. “Mar Dulce” era o modo como o espanhol Juan Diaz de Solís, primeiro europeu a navegar as águas do rio da Prata, em 1516, nomeou o local —“mar” por ser tão largo a ponto de não se poder ver a outra margem; e “dulce”, porque, apesar de lembrar o oceano, se trata de um rio. Solís queria encontrar a passagem entre os dois oceanos, mas acabou sendo morto por indígenas.

Enquanto lança o novo Bajofondo, o múltiplo Santaolalla segue tocando seus outros projetos. No cinema, depois dos dois Oscars (pelas trilhas de “O Segredo de Brokeback Mountain” e “Babel”), está trabalhando com o diretor vietnamita Tran Anh Hung (“O Cheiro da Papaia Verde”) e o brasileiro Walter Salles (“On the Road”).

Na música, prepara-se para dois lançamentos grandes de artistas por ele produzidos, os do colombiano Juanes e do mexicano Cafe Tacuba.
Em dezembro, começa a turnê de “Mar Dulce” pelo mundo, que incluirá o Brasil.
(fonte http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u327078.shtml)

Editado por christopher77 em Out 6 2007, 23h26

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