O dia 20 de março ficou marcado com 3 apresentações especiais no evento do Just a Fest. Los Hermanos, Kraftwerk e Radiohead puderam emocionar mais de 15.000 cabeças (chutando) na Apoteóse. Com um palco muito bem montado, 3 telões (um central e dois laterais) e efeitos de iluminação incríveis, as 3 bandas usurfruiram de uma boa estrutura para realizar o espetáculo. O clima estava ameno, graças a Deus as previsões de pancadas de chuva não se concretizaram.
Não posso dizer muito sobre o show que abriu o festival, o do Los Hermanos, porque não cheguei lá exatamente no início. Pelo que ouvi, só tocaram músicas dos últimos CD's. Para os fãs, deve ter sido muito bom ver o reencontro da banda com os palcos depois de tanto tempo, mas, como não sou exatamente um fã, pulamos essa parte. Pulamos inclusive a parte do Kraftwerk também. Belo show robótico, jogo de imagens incrível. Um pouco massante para quem contava os segundos para o show principal da noite, mas uma interessante musical (destaque para The Man-Machine).
A hora tão esperava estava chegando. Eu ficava de olho em qualquer van chegando na área do estacionamento, já que eu estava na arquibancada com visão privilegiada. Não tinha como esconder a ansiedade: roer as unhas, coçar a perna, assobiar e bater o pé no chão simplesmente entregava o estado emocional dos fãs em todo lugar. A Apoteóse estava invadida por expectativas. Nessas horas, nem aquelas conversinhas de "será que eles vão tocar Karma Police?" rolavam. Enquanto o palco estava sendo montado, gradualmente a tensão aumentava, pois aqueles "canos" já estavam mais do que arrumados, e os funcionários insistiam em mecher em uma coisinha ou outra. Acho que faltavam uns 5 minutos para o apagar das luzes - eu vi um carro chegando no estacionamento. Eu gritei um sonoro "meu Deus!".
Apagou. Todo mundo começou a gritar. Era muito lindo. Eu via uma galera chorando, apontando, esperando, fazendo aquele movimento de abanar as mãos de cima para baixo, tentando puxar gritos sem sentido como "Radiohead vai chegar, o lê o lê o lá". Enfim, o que a ansiedade não faz com o sujeito. Não demorou muito até que a pontualidade britânica da banda permitiu que entrassem bem na hora, pelo menos no meu relógio. Incrível! Todo mundo entrou em êxtase: era realmente o Radiohead na nossa frente. Sem muitas delongas, a introdução com 15 Step foi perfeita: é a primeira música de qualquer show, e nada melhor do que acompanhar aquele ritmo batendo palmas. Deu pra ver que os caras estavam muito bem. Muito animado, demais!
Ninguém imaginaria um Airbag logo em seguida, nos remetendo aos clássicos do OK Computer com abertura em chave de ouro. Aquela guitarra estava muito "Yeah!" com cara de mau. Mantendo o alto nível, Thom Yorke fez questão de anunciar o que viria depois: "this is a song called There There". Uma música tão cheia de caminhos e mistérios (mas ao mesmo tempo tão vibrante), a melhor do Hail to the Thief, que embalou o público nas batidas Johnny tocando o tambor, incessantemente. Essa batida, tão original, foi executada com primor. Sem contar com os riffs, o solo desajeitado de There There nos fez pular pela primeira vez e definitivamente entramos em sintonia com o que chamamos de "show do Radiohead". Enquanto berrávamos: "We are accidents, waiting, waiting to happen!", um refrão delicioso de se cantar (todo mundo sabe), Thom se entortava em função do microfone para fazer o mesmo.
Nada melhor que um brake depois disso tudo: All I Need foi a quarta faixa a ser tocada e introduzia oficialmente o cardápio de músicas lentas da banda. Ânimos acalentados depois disso, mas sem qualquer tipo de perdão, na sequência, entraram com nada mais, nada menos que Karma Police, o hino e ápice musical do Radiohead. Não preciso nem comentar muito: pessoal em delírio e não acreditando muito no que estavam ouvindo, um bom significado para "I lost myself". Brilhante, simplesmente Karma Police no violão ao vivo no Rio em uma noite muito agradável. Depois do primor, a sexta faixa foi uma belíssima execução de Nude, em slow-motion total, literalmente para zerar a adrenalina e entrar em gravidade zero.
Em seguida, Weird Fishes/Arpeggi, que merece um parágrafo só pra ela. A música mais crescente do Radiohead, a minha preferida de todos os álbuns. Os primeiros acordes já me acenderam, e não fazia outra coisa além de cantar com os olhos fechados. Enquanto a bateria conduzia a música, a guitarrinha acompanhava com o "tan tan tan tan tan" que eu tanto gosto. Na altura de "Turn me on to phantom", a batida já ficava mais intensa, até me arrepia. Na pausa genial "I get eaten by the worms, and weird fishes" deu pra respirar pro segundo "movimento" da música, que já chegou destruindo com um acompanhamento vocal por Thom, de primeira. A bateria se mantia firme e forte. Depois daí, era só pular - e não aceitar que a música se aproximava do fim. Esse foi pra mim, o momento chave do show.
O que viria pela frente seriam nada mais nada menos do que The National Anthem personalizada (captando algumas frequências de rádios nacionais) que por um infortúnio da natureza não contou com o trompetezinho desgrenhado no final. The Gloaming e Faust Arp, um pouco menos idolatradas e a inesperada No Surprises deram continuidade ao espetáculo. Antes do segundo grande momento da noite, Jigsaw Falling Into Place consagrava o In Rainbows de vez na setlist. Idioteque fez até um clima pra começar: era uma das músicas mais aguardadas. Desde a ácida introdução até os alucinantes ruídos que caracteziam Idioteque, não dava pra ficar parado. Não preciso dizer que foi muito foda também, SEM o perdão da palavra. O tum-ti-tum mais querido da legião de fãs balançou tudo, inclusive Thom Yorke, que como de praste, deu suas clássicas Idiotecadas no palco. Dançou mais do que muita gente!
I Might be Wrong (a única filha de Amnesiac que foi adotada) e Street Spirit (Fade Out), também inesperadas, foram geniais. A introdução altamente exotéria de I Might be Wrong seguida de uma tensa, e culpada, guitarra colocava realmente os anseios e preocupações da letra pra fora (combinação perfeita com o título). Street Spirit vinha logo após a desértica apresentação: o clássico "Faaaaaade out agaaain" marcou uma das poucas músicas de The Bends tocadas. Não tenho certeza, mas a essa altura Ed gritou "Bom pra caralho!". Acho que foi um resumo muito coerente do que se tinha visto até ali. Bodysnatchers trouxe de volta a pulação e energia, com direito ao solinho em low-fi, que misteriosamente consegue ser muito mais potente que qualquer outra coisa pesada ai fora.
Já na 18ª música, o piano entrava para execução de Videotape. Era o início do primeiro encore. Perfeito era o jeito que as teclas eram batidas: exatamente no mesmo tom e ritmo do CD, muito bom, mas nada que se compare ao "chute" que Thom tentava dar no piano ao final da música. Esse momento hilário mostrava uma tentativa, inútil, dele tentar ajudar a mover o trambolho de cima do palco. De qualquer forma, Paranoid Android vinha ai... Não é necessário comentar do quanto essa música significa, do quanto ela funciona bem ao vivo e de como foi tão bem executada. Também "dividida" em dois "movimentos", talvez tenha sido a mais bem tocada da noite.
Fechando o primeiro encore, House of Cards (tive que cantar sentado, as pernas já não estavam aguentando mais e foi exatamente como iria cantar mesmo se estivesse disposto: House of Cards é totalmente espacial, é pra dar uma desligada mesmo), Just (o momento de levantar de novo e gritar: "You do it to ya.. You do it ya.. Seeelf!) e a fabulosa Everything in it's Right Place - A música longa para shows do Radiohead. Foi um momento sublime, tanto pela bela "intro" quanto pela hipnotizante "outro", uma extensão típica de EIIRP, comum em shows de grande porte do Radiohead, que eterniza os sons finais da música, criando um ambiente muito propício para fechar um encore. Enquanto a banda saia, Johnny ficava no sintetizador prolongando o som, enquanto todo mundo batia palmas contínuas aguardando pelo retorno de Ed "Bom pra Caralho" O'brien e Cia.
O segundo e último encore fechou magistralmente o show. You And Whose Army? (com a surpreendente declaração de Thom, onde dizia algo sobre a América do Norte tentando foder com a gente. Fora isso, voz de veludo - ativar!) + Reckoner (vocais absurdamente em forma, de novo, uma execução muito linda) precederam, para muitos, o gran finale perfeito: Creep. O coro era sinestésico e preciso, todo mundo sabia cantar. E por mais que eu ache uma sacanagem digna de fã-de-momento cantar só em Creep, foi bonito sim. Não se pode negar que muita gente foi só pelo motivo de conhecer Creep e acha-la "legalzinha", mas tomara que essas tenham saído do show com uma visão mais ampla do que é, e do que pode ser Radiohead.
Ainda sobre a Creep, mesmo achando que, de longe, existam umas 25 músicas (do Radiohead) melhores, seria egoísmo meu querer remove-la da setlist, que por sinal, foi quase perfeita. Senti falta de Where I End and You Begin, The Tourist, um pouco mais de The Bends, um pouco menos de In Rainbows, mas não vou ficar aqui falando "Ah, eu trocaria a música X pela música Y" pois o que foi, teve de ser. Deveríamos agradecer por músicas como How to Disappear Completely, Paranoid Android, Street Spirit (Fade Out) e etc - São um luxo... Esbanjam criatividade e performance ao vivo. Pra poucos!
A Apoteóse tá de parabéns. Gostei do som, das estruturas, do público, menos dos preços (cerveja por 5 reais, nem no Maracanã; camisa do Radiohead por 60 conto, nem na Osklen). Eu vou editando este texto de acordo com as novidades, fotos e curiosidades que forem surgindo. Valeu a pena, cada pulo, cada berro, cada centavo!

